Aliança apresenta resultados e desafios de restauração em primeiro evento na COP30

Aliança apresenta resultados e desafios de restauração em primeiro evento na COP30
novembro 10, 2025 Cândida Schaedler

Realizado no Auditório do Parque Zoobotânico do Museu Emílio Goeldi, painel contou com quatro integrantes da organização

“Estamos iniciando a participação da Aliança pela Restauração na Amazônia na COP da Amazônia, com a Amazônia sendo protagonista”. Foi com essa fala que centra o bioma que a secretária executiva operacional da Aliança, Amanda Paiva Quaresma, saudou o público no Auditório do Parque Zoobotânico do Museu Emílio Goeldi para o primeiro painel da Aliança na COP30, realizado no domingo (09/11).

O evento, intitulado “Liderança das redes multi-atores na construção de estratégias para ação climática, restauração de paisagens e conservação da sociobiodiversidade”, contou com a participação de quatro membros do coletivo biomático. Entre eles, Rodrigo Freire (TNC), secretário executivo da Aliança e coordenador do Grupo de Trabalho Bioeconomia; Sâmia Nunes (ITV), coordenadora do GT Políticas Públicas; Fabrício Ferreira (Embrapa), coordenador do GT Silvicultura de Nativas; e Marlúcia Martins (Museu Paraense Emílio Goeldi), coordenadora do GT Pesquisa e Extensão.

Importância de restaurar Amazônia e protagonismo da bioeconomia

O painel iniciou com a fala de Freire, que apresentou a Aliança e explicou a importância de restaurar a Amazônia, não somente de zerar o desmatamento. Não adianta só falar em restaurar floresta se as altas taxas de desmatamento continuam. Em termos de florestas tropicais, o Brasil ainda é o país que mais desmata no mundo, apesar da queda recente nos índices (de desmatamento), explicou.

Conforme dados apresentados por Freire, o Brasil se comprometeu a restaurar 12 milhões de hectares. 86% delas, porém, são áreas privadas. Ele também ressaltou que restauração é um processo sistêmico que necessita levar em conta mais fatores além do plantio de árvores. “E também não adianta falar de restaurar e não falar em melhorar a vida das comunidades que moram aqui. Então é preciso vincular a restauração com o desenvolvimento dos índices de qualidade de vida e desenvolvimento humano da Amazônia”, enfatizou Freire.

Enquanto líder do GT de Bioeconomia da Aliança, Freire apresentou a publicação “Bioeconomia da Restauração”, que foi lançada ano passado. “O que essa publicação mostrou? Que o GT avançou no consenso de bioeconomia de restauração, porque não havia um consenso sobre esse tema de bioeconomia vinculada à cadeia de restauração”, explica. Mais tarde no mesmo dia, a publicação foi entregue à ministra do Meio Ambiente e Mudança do  Clima, Marina Silva, em outro evento.

Freire afirma que foram analisados 61 empreendimentos da Amazônia e, na publicação, houve o enquadramento de 13 deles em quatro categorias definidas: Produtos da Sociobiodiversidade, Redes de Coletores e Sementes Nativas, Restauração Ecológica Via Créditos de Carbono e Arranjos Agroflorestais.

“O estudo mostrou que há um grande investimento em iniciativas de restauração florestal e crédito de carbono, mas, em termos de impacto de pessoas, o impacto ainda é muito restrito”, revelou. Por outro lado, cooperativas e associações – como as que foram estudadas na publicação – ainda recebem pouco investimento, porque não há tanta atratividade a investidores ainda.

“E por que estamos falando isso? Porque, se estamos falando de transformar o arco de desmatamento em arco de reflorestamento ou de restauração, a gente precisa falar de negócios, empreendimentos e investimento”, pontuou Freire, que também recorda a importância de entender a fundo as cadeias produtivas e seus elos para completar o arco da restauração.

Ele também apontou a necessidade de se pensar a longo prazo para que a restauração seja efetiva. “Não adianta o investidor pensar em 2, 3 anos, precisa pensar de 5 a 10 anos”, alertou. Ao final do painel, Freire fez recomendações para políticas públicas e ao setor privado – com o interesse de fortalecer a bioeconomia.

“A gente precisa, em primeiro lugar, de participação social efetiva”, salientou, citando que as comunidades tradicionais e povos indígenas da Amazônia precisam ser protagonistas na tomada de decisões.

Os desafios de acesso a financiamento

Na sequência, Sâmia Nunes (ITV), coordenadora do GT Políticas Públicas, apresentou os desafios do acesso a recursos para restauração no bioma. Segundo ela, hoje já há muitas fontes distintas. “Então o problema hoje não é a disponibilidade de dinheiro. O que precisamos agora é como a gente destrava essas fontes de recursos, para que ele chegue na mão de quem precisa chegar”, pontuou.

Ela apresentou a publicação “Políticas e Fontes de Financiamento para a Restauração Florestal na Amazônia”, publicada em fevereiro deste ano. Ela também pontuou a necessidade de acompanhar a agenda de financiamento climático na COP30, que tem intenção de aumentar o aporte de recursos para a floresta Amazônica.

Ao longo da fala, Nunes citou fundos internacionais e nacionais – neste último caso, citando  o Fundo Amazônia, Fundo Clima, Fundo Nacional de Meio Ambiente e Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal. “Mas há pouco recurso direcionado especificamente ao Bioma Amazônia e a falta de transparência sobre disponibilidade, destinação e acesso a recursos, principalmente quanto aos recursos estaduais. Não são fundos fáceis de serem acessados”, completou.

Ao final, ela também explicou fontes privadas de financiamento, que ela afirmou estarem se tornando mais disponíveis e numerosas. Nessa forma, entram os mecanismos financeiros, empresas e filantropia.

“Então quais são as recomendações de implementação? Aumentar os recursos destinados aos territórios da Amazônia, voltadas às dificuldades que a gente vive. Impulsionar novos arranjos de investimento de diferentes atores e mecanismos. Melhorar a acessibilidade, principalmente para os pequenos e comunidades tradicionais e avançar na regularização fundiária”, finalizou Nunes.

Silvicultura de nativas como apoio na restauração da Amazônia

A próxima fala foi de Fabrício Ferreira (Embrapa), líder do GT Silvicultura de Nativas, o mais recente da Aliança. Ele apresentou a publicação “Posicionamento sobre Silvicultura de Nativas como apoio na restauração”, que será lançada oficialmente no dia 16 de novembro, dentro da programação da COP, na Agrizone, no Auditório A2 às 14h.

Segundo Ferreira, o objetivo do grupo era conceituar silvicultura de nativas e chegar a um consenso sobre as melhores práticas. “A silvicultura gera muitos empregos. A silvicultura, radicalmente falando, é o manejo e o cultivo de florestas, e pra isso você precisa envolver pessoas o ano inteiro. E nós fazemos isso muito mal na Amazônia”, alertou.

Ele também explicou que não é qualquer silvicultura que contribui com a recuperação ecológica e produtiva no bioma Amazônico. “Primeiro, ela precisa ter um enfoque socioambiental. Também estrutura ecológica, diversidade de espécies, manejo de longo prazo, integração com culturas agrícolas e monitoramento”, completou.

Ferreira salientou que a silvicultura é alternativa estratégica na Amazônia, porque “ela alia produção sustentável, recuperação de serviços ambientais, conservação da biodiversidade e inclusão social”. Ao final, ele reforçou o convite para o lançamento da publicação, que será no terceiro evento organizado pela Aliança na COP30.

Recomendações para agências de fomento e pesquisas

Para encerrar o painel, o microfone foi às mãos de Marlúcia Martins (Museu Paraense Emilio Goeldi) e coordenadora do GT Pesquisa e Extensão. Ela apresentou recomendações a agências de fomento e pesquisa com o objetivo de expandir o conhecimento científico sobre o bioma amazônico.

Logo no início da fala, ela alertou sobre o desconhecimento a respeito da complexidade cultural, sociológica e antropológica da Amazônia. “Parece que nós entendemos a Amazônia, mas ainda não a entendemos. Restaurar é um processo holístico, porque precisamos engajar e integrar várias áreas da ciência para isso”, pontuou Martins.

Para isso, ela afirmou que é necessário sair da zona de conforto, uma vez que a ciência ainda está muito segmentada em sua produção de conhecimento e necessita fortalecer a característica multi e interdisciplinar.

Ali, entra a necessidade de conhecer os mecanismos culturais que formam a floresta Amazônica. Conforme os resultados apresentados por ela, os temas prioritários para investimento em pesquisa sobre restauração de ecossistemas na Amazônia são ecologia, etnoecologia, tecnologia e sociobioeconomia.

“A nossa floresta é uma floresta cultural, ela é fruto do manejo humano milenar e esses processos evolutivos humanos e culturais precisam ser entendidos para que a gente possa conhecer a floresta”, explicou. “Então a nossa recomendação principal é que essa  compreensão holística seja feita dentro dos editais da agência de fomento. Esse documento nos ajudou muito no suporte para pelo menos abrir diálogo entre as estratégias de pesquisa e as estratégias de financiamento que são relevantes para a restauração”, finalizou Martins.

A atuação e presença da Aliança nos eventos relacionados à COP30 tem apoio das seguintes organizações: Fundo Vale, iCS e Multiplica Amazônia.